Era tarde da noite. Lá fora, através das janelas, a lua pairava luminescente, clareando a noite alta, que em breve terminaria. A casa estava quieta e Maria Alice, a mais jovem princesa que a Camarilla do Rio de Janeiro já tivera, começava se questionar sobre se seria realmente a mais indicada para o cargo, pois as últimas noites tinham sido particularmente terríveis. Entre inimigos velados e declarados, alianças com sabor de fel e as intermináveis trocas de favores inevitáveis, havia assumido o principado do Rio de Janeiro apenas alguns meses e acreditava ter passado por tudo: já havia mandado matar um dos seus conselheiros da primogene, Alexandre, um promissor aliado entre os de sangue azul, apenas para apaziguar a fúria amorosa da também primogene do clã das Rosas. Na hora a aliança com os degenerados era evidentemente mais importante que a vida de um membro, cujo clã é abertamente contrário ao seu reinado, porém com o passar dos dias aquilo pesava em seus ombros. Não pela morte de Alexandre, mas pelas conseqüências futuras de ato. No entanto, isso seria apenas o aperitivo para seu julgamento quando soubessem das últimas alianças. Nada se comparava ao estranho envolvimento proibido que recentemente estava aflorando em sua vida.
Maria Alice balançou a cabeça tentando afastar os devaneios que lhe distraiam, sentada em sua biblioteca em meio a vários livros, procurava mais informações sobre o estranho mundo de intrigas em que estava sentada
Ela levantou e dirigiu-se ao discreto som que estava escondido em um canto. Colocou para tocar uma cantora que Isabelle jurava ser maravilhosa em seu tocante mundo de torpor e trevas. A voz soava triste, rouca. Como os velhos negros americanos que em uma de suas viagens por Nova Orléans, ela ouvira.
Maria Alice foi até a janela observar a lua. Sorriu tristemente. Era melhor voltar para seus livros. Tantas perguntas, e as respostas escapavam como gotas de chuva. Sobre a mesa, um celular, o seu de antes de se tornar a Regente, tocou.
*Chamada sem ID*
-Sim?
-Então minha cara, você não me ligou para me perguntar como eu estou...
Um frio súbito, se é que era possível, a percorre. Lento e mortal, como um veneno insidioso.
-Como você está?
-Bem. Ainda “vivo” apesar dos esforços da sua Camarilla. Decididamente, satisfeito comigo mesmo. E você, pequena Capulleto?
-Por que você insiste em me tratar como um personagem de Shakespeare? - perguntou
-Você está certa. Julieta era bela, doce, inocente, fresca. Você é trágica, intensa. Parece mais com Ofélia.
-Qual delas? A pintada ou a descrita?
-Eu diria que ambas.
O silêncio invade o espaço. Maria Alice fica desorientada. Um cheiro estranho de tabaco cubano penetra por todo ambiente. Tão súbito quanto seu inicio, o silêncio é quebrado vagarosamente por um murmúrio em seu ouvido, acompanhado de um arfar sobrenatural:
-Achou seu Giovanni?
Alice dá um pulo e tropeça sendo prontamente apanhada por seu visitante.
-Como você entrou aqui Messias?
-Você realmente deseja saber Princesinha? – um sorriso malicioso orna-lhe as feições enquanto a segura com mais força e levanta seu corpo colocando-a junto ao seu. – Por que você me pediu por algo que não necessitava de fato?
-Quem disse que eu não precisava? – respondeu altiva. – Quando eu pedi a você, eu realmente acreditava que era necessário.
-Realmente? Quem você pensa que eu sou, um de seus lacaios, alguém em quem você manda e desmanda? – Ele falou sério, seus olhos estavam assustadoramente próximos – Eu poderia matá-la agora. Isso traria a vitória que todo o Sabá espera. Não haveria honraria que me seria negada. O que me impede de fazer isso? – disse aumentando a força com que a segurava.
-Nada o impede. Sebastian está recolhido, Mauro está fora. Gregório, muito ocupado. Humanos não seriam páreos para o Rei Branco. Vamos lá, Messias, faça logo o que você veio fazer. Mate-me.
Seus olhos se encontram em desafio, porém Maria Alice não agüentou o desafio e baixou os seus. Maldita a hora em que seu mestre havia morrido. Não havia mais laço de sangue forte o suficiente que a fizesse parar de sentir todo esse conflito. Talvez essa fosse a solução. A morte. Através dela, ela poderia enganar o demônio que lhe entregara o Principado. Escaparia do fim certo que a Camarilla certamente lhe daria quando todas as coisas que fizera viessem à tona. Ela não veria o trágico fim de sua amiga. De repente, Ela sentiu-se cansada. Muito cansada. Fechou os olhos e qualquer traço de desafio que ainda havia em seu corpo cedeu. Ela tombou a cabeça no peito dele e uma lágrima, rubra, escorreu por seus olhos, manchando a camisa imaculadamente branca.
-Lágrimas querida? Você realmente acredita que elas podem lhe salvar?
-Eu não quero ser salva. Você não entende? Não há salvação para mim. Em nenhum caminho. Pois não há caminho. Todos convergem para isso. O fim. A diferença é que pelo menos eu morrerei através das mãos do meu inimigo declarado. Que já me tirou muito mais que a vida.
- E o que eu teria lhe tirado, já que sequer cobrei os favores que me deve?
-Isso, eu jamais direi. Mate-me. Acabe logo com isso!
-Ainda não.
Ela começa a se debater, mas sem impor a força que poderia, ou melhor deveria. Ele a ergue pela cintura e subitamente a joga no sofá. Ao cair o roupão se abre, revelando o corpo branco, leitoso. A lua escolhe esse momento para iluminar a sala ainda mais. Ele sorri. Um sorriso quase malévolo.
-Nosso jogo não acabou Princesinha. Eu lhe disse que havia um coração com que desejava possuir; fosse para tê-lo ou para comê-lo. Eu ainda não decidi. Mas esteja certa que quando eu me for, eu já saberei a resposta.
Ele afasta as pernas dela, e se coloca entre elas. Sua mão escorrega pelos cabelos dela até a nuca. Ele os segura e puxa a cabeça dela para trás. Não há o beijo. Há a promessa dele. Suavemente, como um gato que lambe o leite do pires, ele roça seus lábios nos dela. Sorvendo, apreciando. Como se bebesse um fino bourdeux. Ela estremece.
-Vamos, peça, cadela Tremere. Seu corpo treme por inteiro. Por mais que você cerre seus olhos, eu sei que eles me olham obsessivamente. Não há mais princesa. Hoje, você querendo ou não, se tornará a minha Rainha.
Maria Alice abre, então, os olhos.
-E por que eu deveria me tornar a Rainha Branca? Por que eu deveria aceitar atar-me a você, você que não me ama, não me deseja, sequer me vê como eu sou? O que o faz pensar que eu não posso me soltar e feri-lo, ou mesmo gritar pedindo ajuda?
- É isso o que você deseja? – Ele segura um seio alvo em suas mãos. Ela estremece. – Grite Tremerzinha, grite. Nada me daria mais prazer do que matar o cão Nosferatu que rasteja ao seu redor, tentando protegê-la. Grite, e isso será muito pior para você. Quantas mortes você consegue ter na consciência?
O desafio estava lançado. Maria Alice preparou-se para gritar, mas foi silenciada com o peso de um beijo brutal. O sangue escorreu pelo canto de seus lábios feridos pelas presas dele e foi prontamente recebido pela sua língua invasiva. A pressão em seus cabelos aumentou. Ela foi puxada selvagemente contra o peito dele. A outra mão que antes lhe segurava o seio, agora lhe rasgava a frente da camisola. Ele interrompeu o beijo e desceu a boca até o seio pálido, rasgando a pele fina, fazendo escorrer um filete de sangue.
-Você negará seu clã, três vezes antes que eu termine com você, Princesa. Depois que eu acabar não lhe restará outro lugar no mundo que não seja ao meu lado. O seu mundo mudará. Ele será aquele que eu quiser que seja. Então, quando você não me tiver mais serventia, eu a matarei como matei sua predecessora. – Dizendo isso, ele mordeu o lugar do ferimento e sugou-lhe o sangue.
Maria Alice sentia uma onde de loucura, êxtase, dor e medo. E mais forte que tudo, uma tristeza maior do qualquer coisa que ela já havia sentido em todos os seus anos de imortalidade. Ela estava impotente. Indefesa, fraca. Sua consciência aos poucos ia falhando... A sensação das coisas que a cercavam ia sumindo, e o que restava era apenas a sensação de que ele lhe sugar a vida pelos seios.
Ele levantou a cabeça e sorriu. Olhando-a nos olhos. Então como se olhasse a alma da princesa através de seus olhos, ele disse:
-Você me ama? – Perguntou perplexo.
-Sim – respondeu em um murmúrio sentido- Sim. Agora, por favor, me mate.
-Não. Eu não irei matá-la.
Ele baixa a cabeça novamente, e volta beija-la na boca. As mãos percorrem o corpo dela e aos poucos ela começa a retribuir. Então, subitamente, ela lhe rasga a camisa e crava os dentes no ombro dele. O prazer que a toma é maior do que qualquer coisa. O mundo torna-se uma miríade de cores. E ela pode sentir, além do que qualquer orgasmo humano pudesse proporcionar, sua alma se dissolver quando ele a morde.
Sangue com sangue. Ancião e Ancilae. Sabá e Camarilla se unem em um silêncio quebrado por murmúrios. Parece que se passam horas antes que qualquer um deles pense
- Como será agora?
- Eu não sei...
- Algo tem de ser feito, minha Rainha.
- Meu Rei, você é quem deve ser preservado. Eu não sou ninguém.
Messias a olha nos olhos e diz:
-Maria Alice, você sempre foi e será a minha Rainha. Nunca um peão. Nós acharemos uma saída. Agora eu devo ir. O sol daqui a pouco estará aqui.
Ele se levanta. Procura e encontra a camisa rasgada que está ao lado dela. Ela segue seu olhar e a abraça, cheirando-a. Ele sorri e coloca o sobretudo branco.
Ela continua deitada, os cabelos negros espalhados como um cetim, refletindo as cores, aninhada com a camisa suja do sangue deles.
-Eu voltarei.
Então, de repente, apenas o vazio. Amy canta ao fundo algo extremamente apropriado.
If my man was fighting
Some unholy war
I would be behind him
Straight shook up beside him
With strength he didn't know
It's you I'm fighting for
He can't lose with me in tow
I refuse to let him go
At his side and drunk on pride
We wait for the blow
We put it in writing
But who you writing for
Just us on kitchen floor
Justice done,
Reciting my stomach standing still
Like you're reading my will
He still stands in spite of what his scars say
I'll battle till this bitter finale
Just me, my dignity and this guitar case
Yes my man is fighting some unholy war
And I will stand beside you
Who you fighting for
B - I would have died too
I'd of liked to
If my man was fighting
Some unholy war
If my man was fighting*
*Some unholy War – Amy Winehouse